
Le Corbusier © FLC/ADAGP
Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse um
aspecto impeditivo,
prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,
ao nosso relacionamento
profissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,
sim,
e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos
cuidado com elas,
e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as com
respeito,
o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausas
certas,
desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor,
e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão,
sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas,
sim,
mas não da sua, confesso, desculpe, desculpe, é que de repente
pensei
que pudesse estar a interpretar-me mal com o duplo sentido da
palavra língua,
sabe como é, hoje em dia todo o cuidado com a palavra é pouco
e eu tinha acabado de lhe perguntar se gostava de mulheres,
podia soar a sedução,
na verdade só procurava saber se o senhor era machista,
desculpe, fui indelicada,
sim, tem toda a razão, eu gosto é de livros, eu gosto é das
notícias que não vêm
nos jornais, eu gosto é de histórias de encantar, mas olhe que há
algumas bem cruéis,
não, não são só as de terror, olhe que o terror às vezes está aos
pés da câmara,
não, não, eu disse câmara, ouviu bem, achei que se dissesse
cama podia voltar a
baralhá-lo, e daqui a pouco ainda pensava que tenho algum
interesse em si,
tem razão, tem toda a razão, não me lembrei de destacar esse
aspecto no currículo,
não pensei que escrever poemas fosse uma condenação
curricular,
mas já que pede a minha opinião, compreendo que o senhor
não há-de precisar
de uma pessoa como eu, repare, eu gosto de olhar para o céu
horas a frio,
não, não, eu disse frio, ouviu bem, pareceu-me o termo
adequado a este diálogo,
e sim, tem toda a razão, eu não devia tê-lo feito perder o seu
tempo, desculpe,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que só sei ler e escrever,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que sou apenas o contrário de um analfabeto.
Filipa Leal, Entrevista de emprego



Hoda Afshar, Speak the Wind
parada nos semáforos
a minha mãe fumava
estacionada ao fundo das memórias
o último cigarro que a vi fumar
ainda me recordo
a outra mãe
estaria perto de morrer
e a minha
fumava
com a angst de quem foi
menos amada do que o merecido
mesmo assim carregava as queixas
fraldas contas o peso transladado
degrau a degrau
o olhar dela inolvidável
naquele espelho de retrovisor
(só uma matriarca saberia
enterrar outra)
minha mãe-atlas
eu via
e não sabia ainda nada
sobre mitologia grega
mas um dia vais entender
ela repetia
e só quando anteontem
me sugaram pelo umbigo
qualquer dose de indizível
(dói sempre quando decides
tirar algo enroscado na carne)
fazia um tornado em berlin
eu tinha saído na mesma à rua
e chorava agora para dentro
naquela maca improvisada
a christina dizia, o corpo tem memória
e é do umbigo que vem
a saudade do ventre
as árvores caíam lá fora
raízes monstras inteiras sugadas
do chão e a minha mãe
a dois mil e oitenta e quatro
cigarros fumados
naquele renault clio bordeaux
no ano de mil novecentos e noventa e oito
quando eu não sabia ainda
de mitologia ou que a mãe
deixaria de fumar pouco mais tarde
eu ainda não sabia
da vénus de milo da carla
desenhada a sangue menstrual ou da
mulher turca abraçando o filho asmático
na piscina pública de kreuzberg
mas podia adivinhar já
alguns semáforos ininterruptos
a memória do umbigo, esta solidão hereditária:
cromossoma X.
Francisca Camelo, in A Importância do Pequeno-almoço
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.
Herberto Hélder
Arnold Newman, Alfred Stieglitz and Georgia O’Keeffe, 1944

Quem sabe
a dor do botão da violeta
quando abre em plena floração?
Abbas Kiarostami
Caminho português de Santiago
[nota de um possível verso de uma fotografia]
O avançar, um pé após o outro, com a gentileza que atenta no caminho, no corpo, no sorriso dos outros. A sombra dos carvalhos ou dos castanheiros, a clareira ainda a soltar a neblina, o seguir em fila na metade da rua protegida do sol. Os líquenes, os dorsos das vacas e o pequeno cavalo madrugador a caminhar sozinho na rua. O feísmo galego, a beleza das pequenas aldeias esquecidas, os tascos minhogalaicos.
Deitar no beliche, sentir o corpo relaxar, e ver os outros fazer o mesmo. Tirar as sapatilhas, atentar nos pés, cuidar deles. Tomar duche. Dormir um pouco mais cedo e acordar enquanto muitos ainda dormem. Interceptar a dona de um café, carregada de pão, na rua, e acompanhá-la no acender das luzes, da máquina, da tostadeira.
Ver, adiante e atrás, mulheres sozinhas e acompanhadas a fazer o caminho. A segurança do passo delas, e a segurança que trazem para que mais outras o façam. Ver pessoas em esforço, com dor, a persistir, a continuar, sem hesitar.
Ser capaz de atentar ao corpo, ao pequeno desconforto e, com gentileza, alongar, ajustar, reajustar. E dançar enquanto caminho, descompassada, solta, sorridente, leve. E atentar no enorme prazer que traz atravessar um bosque, ouvir um riacho a acompanhar-nos os passos, e inspirar o cheiro a verde, a hortelã bravia.
Tentar aprender, lembrar, usar, estes gestos, olhares, cuidados nos próximos caminhos, mesmo nos mais prosaicos que temos de percorrer.
Santiago-Porto, 2023

Lartigue


"Então a mulher apareceu dentro das outras mulheres
um chapéu magnífico que todas usavam
como se fosse o mundo todo
numa completa transparência,
cheio de lírios, cheio de mulheres
com uma cabeça na existência"
Cláudia R. Sampaio, Uma mulher aparentemente viva




Yto Barrada

Xavier Ribas


Joel Meyerowitz


Helen Levitt

España,1966
Joel Meyerowitz
Há tantos anos, e ainda aqui.








Lá no «Água Grande» a caminho da roça
negritas batem que batem co’a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes…
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso…
Jazem quedos no regresso para a roça.
Alda Espírito Santo, São Tomé e Príncipe

Porto, maio 2022.
A tepidez chegou antes de tempo e ainda não acreditamos. Soltamos os ombros e os pés mostram-se em sandálias, mas continuamos a olhar o céu com incredulidade, questionando o sol e as trovoadas.
Neste domingo, preguiçoso como se fosse um domingo de agosto, uma grande cortina cobria a rua, sentindo o vento, em lentas oscilações. Do canto daquela uma varanda escorria uma conversa alegre para a rua, vibrante.

Edward S. Curtis

Al-Biruni, 973-1048
Abril, 2022
Um viva! às conversas à sombra da árvore, às viagens contadas, aos sonhos (e desilusões) partilhados. Encantar-me com a bela e frágil humanidade dos outros faz-me ser um pouco mais gentil também com a minha.


Jorn Utzon, Can Feliz
Abril 2022, Maiorca
Soller cheira a flor de laranjeira.
Ou, dito de forma menos prosaica: o paraíso reside nos quintais de Soller, no final de abril.
Começa-se por caminhar na cidade e ser-se surpreendido por riachos de aroma doce, feliz. Com tempo, no final da tarde, entramos em pequenas vielas e descemos até onde parecem ser pátios, quintais, espaços privados, e encontramos uma levada. Acompanhamo-la e ouve-se os rios-torrentes ao lado, supreendem-nos as galinhas empoleiradas no limoeiro, em convénio, espreitamos os gatos, um deles literalmente escondido de rabo de fora.
Caminhamos entre fins de quintais e jardins, e chegamos à orla da cidade. Aí, no sopé da montanha, entramos em núvens, lagos, mares de aroma a flor de laranjeira. Primeiro chega-nos uma onda cheia, gigante, e depois vamos seguindo o caminho e o aroma, parando uma, duas, três, quatro, muitas vezes sonhando com tardes inteiras repetidas no meio das laranjeiras, cadeira pousada, livro na mão ou apenas acompanhando o voo dos pássaros. Ficamos plenos daquele aroma, que ainda parece que sinto na madrugada seguinte.
Feliz, feliz, feliz. Laranjais em todos is quintais, centenas, milhares de árvores a estender-se até ao sopé da Tramuntana.
Se aqui vivesse, passear-me-ia todos os dias por entre os laranjais, passaria horas sentada entre as árvores, faria festas, jantares, partilharia com amigos do peito este aroma. Que felicidade, encanto, espanto.

Study for the Spanish dance, JS Sargent, 1879

Franco Fontana

Miranda July, The Future

Macoto Murayama

Edward Curtis

Cristina Garcia Rodero

Ana Kras

Ladri di biciclette (1948)



Abril 2020
Acordei de madrugada, a pensar que não está bem.
Antes levávamos a poesia à rua.
Agora temos de pegar na poesia que levávamos à rua e trazer para dentro de nós.




Índia, 2019
Para a última viagem de comboio, a mais longa (12 horas), arranjámos uns lugares 'coupé', imensa e estranhamente espaçosos. Depois de viagens em que partilhámos carruagem com estudantes universitários, com famílias que nos ofereceram parte do jantar (cozinhado pelo marido!, coisa que se diz rara aqui), com famílias e homens que dormiam aninhados nos bancos para que todos coubessem (num por baixo do meu estavam dois homens, cabeça com pés, e no chão entre bancos idem), ou em carruagens claramente sobrelotadas (em que tive de usar das minhas competências de assertividade para levantar dois militares que se tinham apoderado dos nossos lugares), isto repentinamente ficou demasiado sossegado.

Índia, 2019
A casa é da família Menezes, a senhora fala um português perfeito, arredondado, e ouve-se o sino das 7 da tarde. Podia ser em Portugal, mas é a muitas milhas de lá.


Índia, 2019
Goa. Aqui as folhas são mais largas, os olhos mais alongados, os passos mais lentos. A floresta é mais densa, ocupa os espaços largados pelo homem, dá flores e frutos. Aqui aos domingos as belas mulheres penduram flores no cabelo e sorriem muito.

Índia, 2019
Os autocarros de longa distância têm a modalidade AC e non AC, assim como uma chamada sleeper. Pensando que se tratavam simplesmente de lugares reclináveis, deparamo-nos com um autocarro revestido a cabines de um ou dois lugares onde, sentados como marajás, fazemos estes 263km em 6 horas.

Índia, 2019
Primeiro sorriu, envergonhada. Depois, sentindo o sorriso deste lado, sorriu abertamente. Disse-me algo em hindi (creio). Apertei-lhe a mão como resposta. Pediu-me uma fotografia. Voltou a por-se envergonhada quando a tirei.

Índia, 2019
Inside a movie frame.

Índia, 2019
Sábado, dia de alimentar a vaca sagrada e da reza aos deuses hindus. Mãos unidas junto ao peito, voltinha, voltinha, voltinha. Toque de sino, pinta colorida na testa, donativo. Disparo de tiro bem alto, de várias armas de fogo durante o dia, de foguete à noite. Povo castiço, povo estranho, povo maluco, até os cães ficam doidos. Jodhpur

Itália, 2016
Criamos uma expressão. Fare i pugliese. Aplica-se na estrada.
Por exemplo, ao atravessar a rua, calmamente, sem olhar. Falar ao telemóvel enquanto se conduz, sempre, mexendo expressivamente a mão responsável pelo volante. Buzinar frequentemente, para dar passagem ou para cumprimentar. Parar o carro em qualquer lado, sem encostar nem se preocupar com quanto se atravanca a rua, e achar que está estacionado. Ultrapassar na linha contínua, a 110km/h numa zona de 50, e mudar de direção logo a seguir. Eliminar qualquer noção de distância de segurança, ou até esquecer todas as regras de trânsito. E não se ralar minimamente com isso, continuando rua fora tranquilo e contente. Fare i pugliese, é conduzir sem medo do risco, mas também sem esquecer da bella vita.




Les Mondes Silencieux, Brodbeck & De Barbuat
Marrocos, 2012


Tamiko Nishimura


Vidigueira, 2010
laranjas doces da horta, biscoitos feitos na manhã, sotaques e expressões deliciosas, e um 'ah, gosto muito da doutora, que é tão bonita'
(viver pode ser tão simples...)

Lisboa, janeiro 2016

Bruce Davidson, 1959


A Tentadora, Lisboa, 2016


"Isto não é um coum, isto é um jacaré!"
Porto, 2016
We write to taste life twice, in the moment and in retrospect.
Anaïs Nin



Somos crianças feitas para grandes férias.
Ruy Belo

Ruy Belo

La Lisboa alegre de aquellos años con pescadores en las calles y sin Salazar en el trono, me llenó de asombro. En el pequeño hotel la comida era deliciosa. Grandes bandejas de fruta coronaban la mesa. Las casas multicolores; los viejos palacios con arcos en la puerta; las monstruosas catedrales como cascarones, de las que Dios se hubiera ido hace siglos a vivir a otra parte; las casas de juego dentro de antiguos palacios; la multitud infantilmente curiosa en las avenidas; la duquesa de Braganza, perdida la razón, andando hierática por una calle de piedras, seguida por cien chicos vagabundos y atónitos; ésa fue mi entrada a Europa.
Pablo Neruda

A diary is useful during conscious, intentional and painful spiritual evolutions. Then you want to know where you stand... An intimate diary is interesting specially when it records the awakening of ideas; or the awakening of the senses of property; or else when you feel yourself to be dying.
Andre Gide

2016
falemos de sonhos, de poesia,
falemos de abril
Como se recusa o amor?, perguntavas,
O sorriso brincando ao sol com as romãs.
Eugénio de Andrade


Jean-Luc Manaud






Porto, Progresso
Saudades, muitas.


there you are

Leila Alaouï



Arno Minkkinen


a grande lua
sentada sobre a periferia de Lisboa

2015



Devendra Banhart & Ana Kras



Maya Deren
Ukranian-American, 1917-1961

Plossu


''Elle avait une peau ambré et savoureuse comme la pâte d'amandes.''


The Brown sisters, Nicholas Nixon

Shirin Neshat, Women Without Men


boy meets girl,
by Jonathan Schofield

Alla Osipenko with John Markovsky
e o mar reveste-se de seda prateada, salpica-se com diamantes, e paira aos nossos pés
31 agosto 2014


Ida


London, July 2014




Nils Frahm em Viseu, 2014
Na horta arrás da casa laranjeiras
figueiras e uma
romãzeira junto à nora


Frida, por Isamu Noguchi



Porto, 2014
"Inge Morath was, above all, a traveller ... [H]er approach to a story was 'to let it grow', without any apparent concern for narrative structure, trusting in her experience and interests to shape her work rather than in an editorial formula..."


Audrey, by Inge Morath


Tens um cravo
nas mãos
e vens de Abril


Carolina <3

Inge Morath, 1958

bureau

Annie Leibovitz's mother

Romeu <3

Mª Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes

Lina Bo Bardi


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